UM AMIGO
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PEDRO SFERELLI
CHEFE TROPA I |
Eu quero ter um amigo
que não saiba de nenhuma dessas coisas que todo mundo acha que tem de
saber. Que aprecie um bom prato, mas que não tenha conhecimentos sobre a
alta gastronomia e nunca tenha ouvido falar no restaurante El Bulli.
Esse homem deve ser tão mal informado que nem sabe que existem pessoas
que pagam a outras pessoas para escolher móveis, quadros, tapetes,
objetos e lençóis da casa onde vão morar.
Na sala desse homem devem existir apenas uma estante, um sofá e uma
poltrona forrados do mesmo tecido, talvez um abajur de pé e um piano com
uma flanela sobre as teclas. Não que ele saiba tocar, é apenas o piano
da família que foi ficando porque ninguém mais quis (e quando alguém
passa levanta a tampa e pressiona uma ou duas teclas assim, para
nada, no máximo toca o Bife). Faz bem ter um piano numa casa.
Ele nunca terá ouvido falar de nenhuma grife ou marca de relógio,
mas conhece o vento, sabe quando o tempo vai mudar e sabe também quando
alguém está alegre, triste ou com medo, que seja gente ou bicho.
Eu quero um amigo que identifique o aroma das flores e não o dos
perfumes dos frascos, que ache bonito uma mulher com quadris largos e
seios fartos e que dê valor à bondade. Um amigo capaz de ficar muito
tempo calado, olhando o mar ou a mata, ouvindo os ruídos da natureza e o
silêncio, que conheça as estrelas pelo nome e que sempre, antes de se
deitar, vá olhar o céu para saber se no dia seguinte vai chover ou fazer
sol.
Um amigo de quem os bichos e as crianças gostassem logo à primeira
vista, que chegasse sempre na hora certa que não seria nunca a mesma, e
que fosse embora na hora que tivesse que ir, só por sensibilidade. Um
amigo cuja presença trouxesse calma e harmonia, e perto de quem não se
teria medo de nada, nem de quando falta luz, nem de cobra, nem da
maldade dos homens.
Eu quero ter um amigo, só um, que não saiba o nome de nenhum vinho,
mas que de vez em quando tome uma bebida muito forte; que nunca tenha
ouvido falar de trufas, nem brancas nem pretas, que não saiba quais são
os homens maIs ricos do mundo da revista Forbes e que às vezes
chegasse com um peixe enrolado num jornal, um peixe bem fresco que ele
não resistiu e comprou, para ser feito no forno regado por um honesto
azeite português, como antigamente.
Esse homem teria um sorriso muito franco e muito doce e muito bom,
daqueles em que você acreditaria por saber que é de verdade; ele seria
uma pessoa de quem nunca, nunca se desconfiaria, até porque ele nunca
mentiu nem fingiu, porque nunca teve nenhuma razão para isso. Aliás,
pensando bem, por que será que as pessoas mentem e fingem?
Esse homem teria um carro meio velho, um só suéter e um só paletó
para os dias mais frios e teria poucos amigos, mas amigos que contariam
com ele incondicionalmente. Ele entenderia da alma humana sem nunca ter
lido Freud, não seria ligado em datas e conheceria pouco de botânica sem
nunca ter estudado, só porque acha a natureza uma coisa muito
interessante, mais do que quase tudo.
Eu quero um amigo capaz de me surpreender, e que às vezes se
surpreendesse com minhas bobagens. Eu quero ser muito amiga desse homem,
quero uma amizade em que não haja competição de futilidades, um dizendo
que conhece una aldeia no interior da Tanzânia, o outro rebatendo com um
acampamento no Quênia, um falando do caviar fresco do Irã e o outro de
um hotel seis estrelas que só pouquíssimos conhecem, porque essas
conversas são muito cansativas e sempre iguais.
Ah, como eu queria ter um amigo assim; e se ele fosse mais do que um
amigo, melhor ainda.
Danuza Leão
é colunista da Folha de São Paulo.
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