Escotismo, para quem e para quê?
A nossa sociedade, em todas as partes do mundo, está
enfrentando o sério problema do déficit educacional.
Os professores, entre outros problemas graves, até de natureza
sócio-econômica, enfrentam dificuldades em continuar sendo
também
educadores em face da grande quantidade de
conhecimentos que devem transmitir a seus alunos.
Freqüentemente surgem situações em que a escola, tendo que
ensinar cada vez mais, acaba por educar menos.
Além disso, partes integrantes da educação informal, como a
família,
estão apresentando sinais sérios de enfraquecimento.
Os próprios professores sublinham a importância do papel complementar da família, em termos de educação. Entretanto, existe uma tendência mundial nessa área: de uma forma ou de outra, as famílias estão oferecendo a seus filhos mais independência, mas sem lhes ensinar a autonomia, que lhes permitiria administrar essa independência.. As drogas, a violência e outros males são a expressão da contradição existente entre a independência de um lado e a ausência de autonomia de outro.
Outra característica da nossa sociedade de consumo é
ensinar
aos jovens o preço das coisas, sem lhes ensinar o valor de quase
nada. Mesmo nas camadas sociais mais pobres, as quais não têm
recursos que lhes permitam consumir, esse fato ocorre. Há um
conceito de que a satisfação pessoal deve estar relacionada
com a riqueza material, fato esse que vem trazendo grandes
males para o mundo moderno.
Descompasso entre educação e ensino! Descompasso entre independência e autonomia! Descompasso entre preços e valores! É enorme o desafio enfrentado por nossa sociedade.
Mas é um desafio que pode ser vencido com a ajuda da educação não-formal oferecida pelos movimentos de juventude, particularmente por aqueles que propõem padrões sociais e atitudes, baseados num sistema estruturado de valores, como o Movimento Escoteiro.
O Movimento Escoteiro, desde 1907, vem partilhando as características de participação voluntária, aprendizagem progressiva pela experiência, amizade e estreito relacionamento entre jovens e adultos - todas intimamente ligadas com a estruturação da personalidade dos jovens pelo estímulo a seu senso de iniciativa e responsabilidade, ao estabelecimento de uma escala de valores e à noção de cidadania que os levará a serem os atores principais do mundo de amanhã.
Neste ano, comemoraremos 95 anos da criação do movimento escoteiro. Foi na Ilha de Brownsea, na Inglaterra, em agosto de 1907, que Robert Stephenson Smith Baden-Powell realizou o primeiro acampamento escoteiro, com 20 jovens de diferentes classes sociais. De 1907 para cá, muita coisa mudou: mais de 250 milhões de jovens foram escoteiros, dentre os quais podemos citar algumas personalidades que marcaram a história da humanidade, como o presidente John Kennedy, o papa João Paulo II, o astronauta Neil Armstrong e o cineasta Steven Spielberg. Atualmente, somos mais de 28 milhões em todo o mundo, distribuídos por 217 países e territórios.
No Brasil, há 70 mil escoteiros filiados à União dos
Escoteiros
do Brasil, que é a única instituição autorizada à prática do escotismo
no país, nos termos do Decreto nø 8.828, de 24/1/1946. Contudo,
o ideal do escotismo continua o mesmo de 95 anos atrás:
melhorar a sociedade, ajudando o jovem no seu desenvolvimento
integral. Quando se fala desenvolvimento integral quer se dizer
que o escotismo não está preocupado somente com o
desenvolvimento físico, mas também com o desenvolvimento
espiritual, intelectual, afetivo, social e moral, com o propósito
final de tornar os jovens cidadãos úteis e responsáveis no futuro.
Todos, ou quase todos, têm vaga noção sobre o que é o
movimento
escoteiro, do qual, um dia, já ouviram falar. Talvez até saibam que o
trabalho dos adultos é voluntário, que o movimento tem alguma coisa
a ver com acampamentos; já ouviram escoteiros cantando; já
presenciaram algumas de suas brincadeiras; já colaboraram com
alguma iniciativa dos escoteiros; já foram a uma festa junina por
eles organizada. Mas não sabem para que serve o escotismo.
É alguma espécie de instituição paramilitar? De escola?
De clube recreativo? Poucos sabem que o movimento escoteiro
é considerado o maior e mais organizado movimento de
educação não-formal do mundo, e que o escotismo recebeu,
entre outros prêmios, o Prêmio da Unesco para a
Educação para a Paz.
Muitos se surpreenderiam (e positivamente!) se conhecessem o propósito educacional do movimento escoteiro e de como ele é importante no mundo de hoje, já que não pode haver melhor investimento do que aquele feito para que o jovem se torne um adulto honesto, autônomo, solidário, responsável, comprometido e capaz de administrar a sua vida.
Rubem Tadeu Cordeiro Perlingeiro / advogado / participante do movimento escoteiro desde 1981 / presidente do Conselho de Administração Nacional da União dos Escoteiros do Brasil